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Por que antibióticos exigem prescrição médica?

Entenda como surgiu essa restrição e por que antibióticos exigem prescrição médica.

16 de agosto de 2018 - Maxifarma

Você já tentou comprar um medicamento sem receita e descobriu que não era possível? Isso pode parecer um inconveniente quando estamos sentindo dor, porém, na verdade, é uma medida para proteger nossa saúde. Mas, afinal, você sabe por que antibióticos exigem prescrição médica?

A automedicação é uma prática comum em todo o mundo, mas ela pode trazer consequências que incluem desde efeitos colaterais desagradáveis até graves problemas de saúde pública, como o surgimento das superbactérias – que não podem ser combatidas por quase nenhum medicamento.

O que são antibióticos?

Antibióticos são uma classe de medicamentos utilizados no combate a infecções causadas por bactérias, como alguns tipos de faringite, laringite e pneumonia e doenças como tuberculose, sífilis e gonorreia.

Como os antibióticos agem especificamente nas bactérias, seja por prejudicar suas barreiras de proteção, atrapalhar o funcionamento do seu organismo ou provocar danos em seu material genético, eles não têm nenhum efeito sobre os vírus e os fungos.

Dessa forma, os antibióticos não funcionam para tratar gripes e resfriado, que são doenças virais, nem para combater infecções fúngicas, como micose nas unhas, frieira, candidíase etc.

Os antibióticos e a automedicação

Você já sabe que tomar um antibiótico por conta própria para curar uma doença que não foi causada por bactérias não vai funcionar, mas os problemas da automedicação vão além dessa ineficácia.

Mesmo quando se trata de uma infecção bacteriana, consumir um medicamento dessa classe sem orientação médica também pode não surtir efeito, pois cada tipo de bactéria é suscetível a um antibiótico diferente.

Contudo, além de a pessoa continuar doente por não estar fazendo o tratamento adequado, essas duas situações levam a um problema ainda maior: trata-se da resistência bacteriana, uma ameaça que pode causar mais mortes do que o câncer em 2050.

Resistência bacteriana: um grave problema de saúde pública

As bactérias têm uma enorme capacidade de adaptação ao meio em função das mutações genéticas, o que permite que elas sobrevivam às condições mais desfavoráveis. Dessa maneira, existe um grande risco de esses microrganismos “aprenderem” a se defender da ação de um antibiótico quando ele é utilizado de forma indiscriminada – por exemplo, quando não há necessidade, em uma dose diferente, fora dos horários recomendados, por um tempo menor ou maior do que o indicado etc.

Isso acontece porque algumas bactérias conseguem remover as moléculas do antibiótico de dentro de seu organismo, outras são capazes de se “disfarçar” para que não haja a ligação química com o remédio e um terceiro grupo ainda produz proteínas que destroem o medicamento antes mesmo de entrar em contato com ele.

Outra característica das bactérias que torna essa situação ainda mais grave é que elas conseguem transmitir essa “aprendizagem” (ou seja, a mutação genética que permite que elas sobrevivam ao antibiótico) às suas filhas. Dessa forma, surge uma nova linhagem de microrganismos que não respondem mais a um medicamento.

Além disso, uma espécie de bactéria pode transmitir essa habilidade de resistência para bactérias de espécies diferentes, espalhando ainda mais o gene que sofreu a mutação.

Conforme os pesquisadores descobriram e estudaram esses mecanismos de resistência, eles desenvolveram antibióticos mais fortes e capazes de contornar esse problema. Porém, esses novos medicamentos podem ser muito tóxicos para os pacientes e, com o tempo e o uso indiscriminado, as bactérias podem se tornar resistentes a eles também.

Hoje já existem alguns casos registrados de superbactérias, microrganismos que sofreram diversas mutações genéticas e se tornaram resistentes até mesmo aos antibióticos de última geração. Como resultado, as possibilidades de tratamento diminuem, acarretando em gastos mais elevados, menos eficiência terapêutica e maior taxa de mortalidade.

Por que antibióticos exigem prescrição médica?

Todo tratamento com antibiótico aumenta o risco do desenvolvimento da resistência bacteriana, de modo que essa classe de medicamentos só deve ser utilizada quando realmente existe necessidade.

Porém, o paciente leigo muitas vezes não tem como diferenciar uma infecção viral de uma bacteriana, por exemplo, e, mesmo que realmente se trate de uma bactéria, a população em geral não teria como saber qual antibiótico é o mais indicado para cada situação.

Diante desse quadro, em 2010, por meio da Resolução RDC 44, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou que os antibióticos só podem ser vendidos quando o paciente apresenta uma prescrição médica, que deverá ficar retida na farmácia. Esse é o documento que comprova que aquele medicamento foi indicado por um profissional devidamente habilitado a diagnosticar e propor um tratamento.

Com essa medida, a Anvisa tem como objetivo reduzir a prática da automedicação e, em consequência, conter a disseminação dos mecanismos de resistência, evitando o surgimento das superbactérias.

Outros cuidados para evitar a resistência bacteriana

Além de evitar a automedicação, é essencial seguir à risca as orientações do médico ou do farmacêutico tanto para que o tratamento ofereça o máximo de eficiência quanto para evitar que as bactérias se tornem resistentes.

É comum, por exemplo, que os pacientes abandonem o tratamento quando se sentem melhor, acreditando que a infecção já foi resolvida. Contudo, esse hábito acaba favorecendo que as bactérias se tornem resistentes ao promover uma “seleção natural” entre elas.

Quando a pessoa segue apenas parte do programa terapêutico, o antibiótico vai destruir somente as bactérias mais fracas, que não apresentavam nenhum tipo de resistência ao medicamento. Como elas estão em maior número, por serem mais comuns, é normal que o paciente apresente uma melhora aparente.

Porém, ainda vão restar algumas bactérias mais fortes, que ainda precisariam de uma maior exposição ao antibiótico para serem destruídas. Considerando que agora há muito mais espaço e recursos disponíveis para as bactérias mais fortes que sobreviveram, elas poderão se multiplicar e transmitir os mecanismos de resistência às suas filhas.

Como resultado, a infecção volta a apresentar sintomas e será mais difícil tratá-la, pois haverá uma quantidade muito maior de bactérias ainda mais fortes.

Por isso, agora que você sabe por que antibióticos exigem prescrição médica, você tem novos motivos para evitar a automedicação e sempre seguir o tratamento conforme a orientação profissional.

Fonte(s): CFM, El Pais, Saúde Abrl e Dr. Drauzio Varella